domingo, 27 de setembro de 2009

Auto - Engano - Eduardo Giannetti - Cia das Letras

Eduardo Giannetti dedicou esse seu livro para sua mãe, poeta e psicanalista.

Ele começa o livro, na primeira linha - "A natureza submete tudo o que vive ao jugo de duas exigências fatais: manter-se vivo e reproduzir a vida. Nada escapa. Do protozoário unicelular ao autodesignado Homo sapiens".

Se a psicanalista Yone e seu filho Eduardo Giannetti me desculparem pela ousadia da interpretação da dedicatória, talvez, seja a síntese do livro - qual ser humano mais amaria, incondicionalmente? E, o autor, não querendo cometer um auto-engano, dedicou seu livro à sua mãe. Porque, eu creio, antes dele (Eduardo Giannetti) existir, sua mãe já o amava, o desejava e o esperava!

Não existe, na minha experiência de vida, investimento mais aleatório, de maior entrega, de maior confiança na vida, de maior risco de retorno, do que conceber e amar, "no escuro", num ato da mais pura fé na vida, o ser que ainda será gerado e virá pela maternidade!

Este livro e outros do Eduardo Giannetti, eu adoro, de paixão!

Pergunto-me como é possível ser profissional, professor, cientista, mestre, educador, ter responsabilidade sobre outras pessoas, influenciar a vida e definir o destino de milhões de
pessoas, cidadãos e cidadãs sem refletir os conteúdos deste livro?  !

Deveria ser um livro para vestibulares, grupos de estudos, nas empresas, nos exames de defesas de teses, para cientistas, pesquisadores, para políticos ou quem se pretende representar grupos ou comunidades da população.

Meu exemplar está muito sublinhado e fico confusa em como selecionar o que gostaria de ressaltar.

O melhor é reler, inteiro, e isso devo fazer hoje e nos próximos dias, porque nesse processo de sobrevivência e competição, disputando recursos escassos, pois estou numa faixa de idade definida como do declínio da vida, eu preciso furiosamente me auto-enganar para continuar vivendo.

"Ele agirá impelido pela intensidade de suas carências, de um lado, e limitado pelo seu leque de comportamentos e pelas ameaças e obstáculos com que se depara, de outro."

pg 60 - "A sorte, sem dúvida, não é tudo. Talento, inteligência e força de vontade contam muito."

"O prodigioso Golias - um guerreiro gigantesco com armadura de bronze, capacete, escudo e lança terríveis - desafia para um combate a dois qualquer nobre ou soldado do exército israelita. Ninguém ousa: o moral das tropas desaba. Aparece um menino chamado Davi e aceita o desafio de enfrentar o terrível Golias. Todos duvidam e caçoam, mas ninguém o impede. Armado com cinco pedrinhas redondas, uma funda(versão primitiva do bodoque) e a fé inocente de que Deus está a seu lado, o menino Davi acerta a cabeça do gigante filisteu logo na primeira tentativa - não haveria outra! e derruba-o morto ao solo. O exército israelita recobra o ânimo, retoma a iniciativa e vence o inimigo (Samuel 1, 17).

pg 61 " Os erros do ser humano tornam-no digno de amor. O maior erro de todos seria jamais errar."

pg 81 - " Não há nada externo à nossa mente que corresponda às nossas expectativas subjetivas do que se passa nela. Nosso mundo não cabe no mundo."

pg 85 - " O mundo vivido por dentro, pertence a outro mundo. "

vivências internas -" ou seja, processos mentais que, por estarem ainda mais afastados de qualquer tipo de existência independente da experiência de quem os têm, nem sequer se prestam a uma hipotética projeção visual do que vai pela mente. A concepção científica de objetividade, em suma, condena o investigador a uma postura cognitiva que faz do objeto do conhecimento uma superfície vazia de experiência e destituída de subjetividade. Não há nada de errado com isso, é claro, até onde já se chegou e pode chegar. O problema é que o mundo em que vivemos - o mundo vivido por dentro - pertence a outro mundo."

pg 95 - " O relato expressivo feito por Montaigne a partir de sua própria experiência - Se falo de mim de diversas maneiras é porque me olho de diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam, no fundo como na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sincero, sábio, ignorante, liberal, avarento, pródigo, assim me vejo de acordo com cada mudança que se opera em mim. E quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si, e até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância. Não posso aplicar a mim mesmo um juízo completo, simples, sólido, sem confusão nem mistura, nem o exprimir com uma só palavra." Nada é igual a nada. O colorido é particular, mas o problema enfrentado por Montaigne é universal. O autoconhecer modifica o conhecido....

pg 97 " Ao ouvirmos uma voz gravada, por exemplo, qualquer que ela seja, a eletricidade conduzida pela pele aumenta. Ao ouvirmos nossa própria voz gravada...."

Um bom domingo. Dia de 27 de setembro de 2009, ensolarado, brilhante, chegará talvez a 30 graus celsius, o céu está azul em S.Paulo - SP - Brasil, além de andar um pouco no parque, ficarei horas na ótima companhia deste livro. 8:40 am.

sábado, 26 de setembro de 2009

As novas passagens masculinas - Gail Sheehy - editora Rocco

Este livro foi escrito pela autora pensando e estudando homens na sua vida adulta, com todos os seus problemas de afetividade, competitividade, mercado de trabalho, casamento, sexualidade etc.

Foram realizadas centenas de pesquisas, com a ajuda de organizações, especialistas e universidades.

Ela trata de temas delicados como os aspectos econômicos na meia idade, como simplificar a vida, o que abrir mão, realizar sonhos projetados e não concretizados.


A autora lembra que, se o poder não é duradouro, a influência na sociedade pode continuar. Trata da crise da vaidade, do medo de perder os cabelos, dos fracassos nos negócios etc.

E ela ressalta - Não se aposentem - Redirecionem! Pessoas saudáveis não precisam pendurar as chuteiras. A palavra aposentar traz uma conotação negativa  - desistir, retirar, despedir, ir para a cama, segregar....

Não se aposentar mas redirecionar a vida, torna-se uma forma de buscar um novo mundo.

Importante: apesar do livro ter sido escrito para o público masculino, profissionais mulheres, que foram as responsáveis por sustentar suas casas durante sua vida ativa, pagaram pessoalmente os financiamentos de casa, de carros, de estudos e viagens, criaram filhos, enfim, que tiveram na sua vida profissional a base de sua vida econômica podem encontrar também excelentes reflexões no livro.

É sabido e divulgado que, os homens, raramente ficam sós e obtém facilmente ajuda ao longo de sua vida - mãe, esposa,  avós, secretária, filhas, namoradas, amigas, parentes são mais presentes na vida dos homens do que apoiadores de outras mulheres, porém, muitas vezes, os homens precisam aprender a pedir ajuda quando ficam sem recursos para dar conta dos problemas dos 50, 60 anos.

A autora também ressalta que, um dos fatores de sobrevivência  e bem estar dos homens, é estar casado. A chance de viver mais é maior no grupo de homens casados do que sozinhos.

Apresenta sugestões de Estratégias de Sobrevivência quando se perde o emprego, o que por si só amplia bastante o número de leitores e leitoras que podem se beneficiar da leitura.


por Maria Lucia Zulzke, em 26 de setembro de 2009, em S.Paulo - SP - Brasil

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Passagens - crises previsíveis da vida adulta - Gail Sheehy

Encontrei um outro aspecto importante no livro que não ressaltei ontem  - trata-se da passagem de magnatas empresariais ao setor de filantropia e "mentoring".

" Os problemas da generatividade"  - Para cada magnata que se transforma em filantropo e todo executivo que passa a desempenhar o papel de mentor, há dezenas de gerentes de escalão intermediário que acreditam que, se não forem capazes de manter sua percentagem no mercado, não prestam para nada.

Depois de tanto tempo medindo seu próprio valor segundo as demonstrações de perda e lucros, internalizaram todos os valores do sistema empresarial.... Por trás de seu pára choques protetores, suas rebeliões frustradas, a maioria dos gerentes de escalão intermediário sabe que custam um vintém a dúzia.

Homens mais jovens não são anjos a serem ensinados; são também uma ameaça. Esse conflito de generatividade é acompanhado pelo medo de correr mais riscos e da abominada falta de heroismo que a cada dia deixa atrás de si mais sinais desse medo....

"A coragem para uma mudança de carreira - No entanto, para muitos executivos há nesse tipo de ajustamento muita coisa que implica fracasso e obsolescência. Podem desejar sair, mas muitas vezes acham dificil passar para um trabalho de menos prestígio........ Quanto tempo realmente leva para um gerente intermediário realizar tal mudança é outra história.

....Os temores são de estagnação. Esses homens são pessoas fanatizadas pelo trabalho. Possuem uma coisa que conhecem muito bem e na qual trabalharam. Parar e mudar para outra coisa é muito duro."


por Maria Lucia Zulzke, em S.Paulo - SP - Brasil, em 24 setembro 2009, 11:35am

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"Passagens - crises previsíveis da vida adulta", por Gail Sheehy

Tenho esse livro há muitos anos. A versão brasileira saiu em 1979 e é uma espécie de guia para elucidar os desafios, dificuldades e etapas que acompanham as nossas fases de crescimento e amadurecimento, a fase adulta - entre os 18 e os 50 anos, centro da vida, época de desenvolvimento e oportunidades.

Pessoas apresentam problemas? Hoje, crianças, adolescentes, adultos com dificuldades recebem rótulos inúmeros - doença do TOC, transtornos inúmeros, bipolaridades, demência e tantos outros termos que geram discriminações e desqualificações dos seres humanos.

Uma ironia da sociedade que devemos ficar muito atentos: os "vencedores" na concepção e receptividade pública e no sucesso financeiro, podem se dar ao luxo de serem bagunceiros e encrenqueiros, e briguentos. Recebem um rótulo bonito no julgamento popular  - são hiperativos!

Um outro aspecto importante na avaliação das fases das pessoas - quão mais presos às tradições, controles, ou porque nascem muito ricos e donos de poder social, e gozam de grande estabilidade social, desfrutam de prerrogativas das quais serão privados os com menos condições intelectuais e econômicas.

A autora, embora tendo escrito o livro numa época diferente da atual, começa no capítulo primeiro com o relato de seu colapso nervoso aos trinta e poucos anos. Ela sofre um trauma imenso numa fase feliz e produtiva de sua vida. Estava conversando com um rapaz na Irlanda do Norte e uma bala de verdade destruiu o rosto do rapaz! Não era cinema, nem teatro e nem literatura ou arte. Era um dado da realidade que a alteraria!

nas páginas 10 e 11 ela descreve a desintegração da mente de uma senhora ativa e alerta, diante de uma perda irreparável - ela relata, também, experiência pessoal imaginando-se doida, diante de sua própria morte. Precisamos lutar e assimilar nossas deficiências e o lado destrutivo do mundo.

As pessoas não entendem as razões que levam outras pessoas a não superar dificuldades. São inúmeras as razões que fragilizam seres humanos e é muito mais fácil rotular e excluir.

Para quem não quer ser vítima dos autores de rótulos e carimbos de personalidades, esse livro ajuda muito! São inúmeros os núcleos onde precisamos organizar nossas vidas, são inúmeros os núcleos acolhedores ou, pelo contrário os núcleos julgadores, redutores e castradores das nossas potencialidades.

Essa autora querida, com seu livro, nos estende as mãos para atravessarmos mais uma etapa nova e única de nossas vidas. Visões distorcidas de envelhecimento e solidão ou, sistemas que insistem em vender a imagem da juventude eterna, deixam os seres comuns se sentindo "restos humanos" e se sabe que são procedimentos de manipulação psicológica deliberada, que tem como objetivo final induzir ao consumo - come-se muito para reduzir a ansiedade, usam-se remédios e outras muletas para superar o que poderíamos encaminhar de forma mais amorosa, quando entendemos o núcleo de cada um de nós.

Trechos do livro:

"os louros são reservados a realizações externas e não as internas"

"Todos nós temos aversão a generalizações, por julgarmos que elas violam o que cada um de nós tem de singular. No entanto, à medida que envelhecemos, mais nos tornamos conscientes da universalidade de nossas vidas, como também de nossa solidão essencial como navegadores na jornada humana.... A generalização me assustava cada vez menos. Reli uma observação de W.Carter com uma mistura de divertimento e aprovação: Só há duas ou três histórias humanas, que se repetem furiosamente, como se nunca tivessem acontecido antes".

"A sociedade oferece pouco apoio às pessoas que se desviam do rumo familiar de desenvolvimento. O disse-me-disse os transforma em pessoas "diferentes" porque elas desafiaram a sabedoria convencional e ameaçam o resto do rebanho."

"As pessoas ficavam perplexas com esses períodos de abalo. Tentavam relacioná-los com acontecimentos externos em suas vidas, mas não havia nenhuma constância nos acontecimentos que culpavam, ao passo que havia uma notável constância no tumulto interior que descreviam."

"O segundo objetivo seria comparar os rítmos de desenvolvimento de homens e mulheres. Logo se tornou gritantemente óbvio que o andamento do desenvolvimento não é sincronizado nos dois sexos. As fases fundamentais de expansão que conduzirão uma pessoa, com o tempo, ao pleno florescimento de sua individualidade são as mesmas para os dois sexos. Mas, raramente, homens e mulheres estão lutando com as mesmas perguntas na mesma idade."

Capítulo 18 - Dante Alighieri, na abertura da Divina Comédia: " No meio da viagem de nossa vida, encontrei-me numa floresta escura onde havia perdido o caminho. Ah, como é dificil falar daquela floresta, selvagem, rude e tensa, cuja lembrança renova meu medo. Nem a morte é mais horrenda."


Dante escreveu essas palavras em seu 42 aniversário.... era um idealista apaixonado aos 35 anos, casado com uma dona de terras e pai de vários filhos, e tinha sido eleito um dos principais magistrados de Florença. Tentou julgar com justiça em meio a violentas lutas políticas. Mas em 1302, Dante foi condenado in absentia por se recusar a reconhecer a autoridade do Papa em assuntos civis. Era uma transgressão da qual ele se orgulhava e de que não se arrependia. Rejeitou as regras "deles" em favor de sua própria autoridade. Em consequencia disso, seus bens foram confiscados e Dante foi banido de sua cidade natal.


Acontece que Dante começou a vaguear pelas aldeias e bosques da Itália, a "floresta escura" de que ele fala. Naquela floresta, face a face com os demônios com que todos nós nos confrontamos nesse período, ele lutou com divisões terríveis dentro de si mesmo."


"Ao assumir o papel de peregrino na Divina Comédia, ele representava o homem comum. E escolheu não um santo, e sim um pagão para o conduzir através do inferno. Para ele, renunciar ao mundo, como faz um religioso, seria negar grande parte de si mesmo, e para tanto ele era um poeta orgulhoso demais" ...

"A meia idade é definitivamente uma época para se ter um saudável respeito pela excentricidade. Isso só é possível quando vencemos o hábito de tentar agradar a todo mundo, o que parece acontecer tardiamente para muitas mulheres.... Quero que algumas pessoas gostem de mim, e basta."

O livro é volumoso, quase 500 páginas de estudos mostrando inteligência, delicadeza, pesquisa, espírito de investigação e cultura ampla. A autora realizou 115 entrevistas e fez o trabalho com bolsa da Fundação Alicia Petterson para estudar o desenvolvimento adulto.

por Maria Lucia Zulzke, em S.Paulo - SP - Brasil, em 23 de setembro de 2009, às 12:50pm

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"Histórias de Um superconsumidor " por Marcos Dessaune

Livro pela Editora Fundo de Cultura. O autor é advogado, comunicador e foi um grande sucesso como vendedor exclusivo de pianos austríacos no Brasil! Dedica-se à música clássica, desde a infância. Estudou, nos Estados Unidos, sobre qualidade de serviços e atendimento ao consumidor.

Creio que o mundo iria funcionar melhor, se fosse "passado a limpo" pelo crivo do autor e de pessoas exigentes como ele.

Para alguns, ele poderia ser do tipo "não levo desaforo para casa" mas ao contrário de quem pensa ganhar no grito, ele parece que não  explode, mas persiste, insiste, registra, escreve e publica. Usa a internet como seu campo de mediação.  

Ele fez do seu "ser" e "estar" no mundo, o seu laboratório de aprendizados e, por meio do poder do Direito e da imprensa, onde conta com admiradores, extrai conceitos para avançar no campo das suas propostas.

Neste seu livro, ele relata inúmeras experiências: num cartório, num banco com alguns profissionais da área financeira, com planos de saúde, na tentativa de ouvir música clássica com sua filha, ainda bebê, numa sala  pública de concerto, com a falta de troco no varejo, numa vara judicial, e em muitos outros espaços públicos  e comuns, partes da vida de cidadãos(ãs) civis.

Transcrevo, a seguir, parágrafos da Introdução do seu livro:

" Ouço frequentemente que os problemas de consumo em que me vejo envolvido - produtos com defeitos reincidentes, serviços pessimamente prestados, práticas abusivas etc - só acontecem comigo. Não é verdade. Eles ocorrem com todo mundo, porém as pessoas têm níveis diferentes de percepção, de tolerância e de reação. Pela minha formação acadêmica e prática profissional, creio estar "mais alerta" para detectar falhas e abusos dos fornecedores em geral. Além disso, como conhecedor dos próprios direitos, imagino ter uma reação "mais indignada" e de "cobrança efetiva" daquilo que considero ser justo, ético e lícito...."


por Maria Lucia Zulzke, em 18 de setembro de 2009, em S.Paulo - SP - Brasil, às 9:20hs