quinta-feira, 10 de setembro de 2009

" As Brasas" - Sándor Márai - Cia das Letras

Quando estamos experimentando uma culinária diferente e que nos agrada muito, queremos voltar aos pratos preferidos e passamos dias repetindo receitas prediletas. Alguns paladares são assim e alguns sabores são assim. Outros, não queremos repetir jamais! Desagradáveis, fazem-nos mal!

Com bons livros é quase o mesmo que acontece. Como ler depressa este livro? Volto ao mesmo parágrafo várias vezes, releio, fecho o livro e volto - são palavras simples, unidas numa frase, e fazem a diferença " Vejo o instante em que o apresentei a meu pai no jardim do colégio. Ele o aceitou como amigo, porque você era meu amigo. Não confiava sua amizade a qualquer um. Falava pouco, mas podia-se confiar no que dizia, até a morte. Lembra-se daquele instante? ......meu pai apertou sua mão. Você é o amigo de meu filho? disse 'Honre esta amizade' Creio que para ele não havia nada mais importante que a honra. Está me ouvindo?"

pg 89 - " Porque existe uma verdade baseada nos fatos. Aconteceu isto e aquilo, neste ou naquele momento. São coisas fáceis de estabelecer. Os fatos falam por si, como se costuma dizer, e no final da vida todos os fatos, postos lado a lado, lançam acusações e clamam às escâncaras, com mais força do que um condenado submetido à tortura. Não pode haver equívocos sobre o que aconteceu.....Não pecamos só pelos atos, mas também pela intenção que nos leva a executar determinados atos. A intenção é tudo. Os grandes códigos  jurídicos de inspiração religiosa do passado, que consultei, declaram explicitamente: um homem pode aviltar-se por infidelidade e por atos infames, sim, também pode tocar o fundo, cometer homicídio, e no entanto conservar sua pureza interior. O ato ainda não corresponde à verdade. É uma simples consequência. .... o fato ... é fácil estabelecer, o motivo, não. Creia.... examinei todas as hipóteses que pudessem me ajudar a entender a razão desse seu passo incompreensível."

por Maria Lucia Zulzke, em 10 de setembro de 2009, às 13:30 hs em S.Paulo - SP - Brasil

terça-feira, 8 de setembro de 2009

"As brasas" - livro de Sándor Márai - Cia das Letras

É um romance sobre a lealdade e amizade entre homens, durante décadas.

O tema central é o mundo masculino. O tema secundário, a disputa do amor de uma mulher. 

Não importa o país, a época, ou os envolvidos num "triângulo amoroso" quando são sentimentos humanos.


"Ninguém pode se apropriar impunemente de uma pessoa, subtraindo-a de todas as outras."


pg 83 - "Mas o pior é sufocar dentro de si as paixões que a solidão acumulou. Quem faz isso não foge de lugar nenhum, não mata ninguem. Então, o que faz? Vive, espera, mantém sua vida bem organizada....  Espera e só. Espera o dia ou a hora em que mais uma vez poderá conversar com a pessoa ou as pessoas que o reduziram a essa condição; conversarão sobre as razões que o obrigaram a essa solidão."







por Maria Lucia Zulzke, em 08 de setembro de 2009, às 11:00 am, em São Paulo - SP - Brasil

domingo, 6 de setembro de 2009

'"Sem Sangue" - Alessandro Baricco - Cia das Letras







                                   foto na Flip 2008 - julho - Paraty, Brasil

Alessandro Baricco é um escritor italiano, renomado, tem escrita enxuta, temas europeus, mas dramas e conflitos presentes em todas as culturas.

Nesse seu livro, as marcas da "guerra" revelam-se ao longo de décadas. Em "Sem Sangue", a guerra poderia ter acontecido em qualquer país, em qualquer tempo e suas marcas persistem visíveis ou invisíveis, nos corações.

Como escreve o autor, quem decide pela "guerra" considera a luta legítima para "construir um mundo melhor" mas, a maioria sofre e não tem direito à defesa.

E, será que o "mundo fica melhor?"

Nesse livro, olhares e ouvidos inocentes são testemunhas dos infortúnios de sua família nuclear.


"Muitos anos depois, haverá um encontro fortuito entre uma senhora e um vendedor de bilhetes de loteria. Mas não se pense em bilhete premiado nem sorte grande. Mais uma vez, o desfecho que parece óbvio driblará as expectativas, pois o destino reservou surpresas ao encontro dos protagonistas com seus próprios fantasmas."

"Para quem sofreu suas crueldades, quando se pode dizer que uma guerra chegou ao fim? E os nobres ideais podem justificar a violência?"

" O autor, nascido em Turim, é pianista de formação, graduado em filosofia e foi crítico de jornais e televisão."


por  Maria Lucia Zulzke,  em São Paulo - SP - Brasil,  em  6  setembro  2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Comédias da Vida Privada - Luis Fernando Verissimo

Quem não conhece esse autor? E, seus tipos inesquecíveis? O Analista de Bagé e a ingênua Velhinha de Taubaté?

"Nesse livro ele traz o território da classe média, a complicada engenharia familiar, as fidelidades, infidelidades, as mesas de bar, as angústias, o trágico e o cômico combinados na estranha sinfonia do cotidiano, casais, salas de jantar onde são decididos destinos com a televisão ligada...."

             Férias

"- Praia - gritou a filha.
- Serra - gritou o filho.
- Quintal - sugeriu o pai, pensando na crise.

A mulher tinha um sonho fazer um cruzeiro num transatlântico de luxo. Só uma vez na vida. Noites de luar no Caribe. Drinques coloridos à beira da piscina. Lugares exóticos com nomes românticos.
- Galápagos...
- Barbados...
- Falidos...
- Fal... como, Falidos?
-É o que nós ficaríamos depois de uma viagem destas. Você sabe quanto custa? "
.......................................
São 101 crônicas escolhidas e muito bem humoradas.
Editora L&PM, Porto Alegre, edição 1996.

por Maria Lucia Zulzke, em 03 de setembro de 2009, às 10:30am, em S.Paulo - SP - Brasil

terça-feira, 1 de setembro de 2009

"O último judeu" - uma história de terror na inquisição

É um dos romances de Noah Gordon, editado pela Rocco. Há citação ao início de agosto de 1489.

O conteúdo é fascinante, a leitura envolvente e a trama não me deixa parar. A todo momento vem a pergunta angustiante: o holocausto, então, não foi uma construção pontual do século 20? 
A "humanidade" seria repetitiva e cíclica?

Alguns dos ingredientes do terror e das raízes da intolerâcia são:

1)escolhido um público alvo;
2)comportamento é estudado;
3)hábitos e rituais são perseguidos;
4)estimulada a denúncia;
5)fontes de renda e da sobrevivência financeira são cortadas;
6)exclusão social;
7)membros de uma mesma família são levados ao isolamento

É um romance.

Escreveu, Gilberto Dupas, em artigo sobre "As raízes da intolerância" - jornal "Estado de São Paulo", Espaço Aberto, em 8 de fevereiro de 2003  "A exacerbação da intolerância, disfarçada por uma falsa retórica de valores absolutos, que leva à tentativa de imposição de normas e práticas, desenvolvendo comportamentos comunitários agressivos."

"Se conseguirmos despolitizar as religiões e tratá-las como minorias da comunidade política - e não transformá-las em razões de Estado ou alimento para o preconceito ....."

"Cabe aos mais poderosos o exemplo primordial de tolerância. Quem está em posição de tolerar é quem detém o poder de esmagar, mas decide não o fazer. Não tem sentido pedir aos vencidos que tolerem os vencedores.... a hegemonia se transformará em tirania."

O artigo de Gilberto Dupas, publicado no jornal O Estado de São Paulo, quando presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais, é atual, ainda que escrito em 2003. Fica a dúvida: ele conhecia ou pressentia?

 Maria Lucia Zulzke, em São Paulo, dia 01 de setembro de 2009, às 11:00 am